• Alexandre Tatsuya Iida

ONGAESHI |恩返し

Atualizado: 12 de Dez de 2019


(Ministrando a Palestra de Sake no anfiteatro do Colégio Oshiman)

Há alguns meses, eu e meu amigo de longa data, Dai Iijima, fomos convidados para um chá da tarde no Colégio Oshiman, que é dirigida pelas Diretora Mayumi Madueño e a Vice-Diretora Emy Ueda Saito. Só que o nosso encontro era com a nossa professora e mantenedora do Oshiman, a Marico Kawamura.

No tempo que ainda não existia o nome Oshiman, nós estudávamos no Curso de Línguas Shohaku que ficava no bairro da Aclimação, em São Paulo. Lá era uma casa onde a sensei morava no próprio imóvel e fazia um milagre para lecionar tantos alunos em duas salas da casa.

Ainda mais para alunos, digamos problemáticos como nós, era surreal a quantidade de coisas que aprendemos e o melhor: Usamos até nos dias de hoje.

Estudei desde 1982 à 1993 no Shohaku e tive o privilégio de chefiar o 9º Shisetsudan 松柏学園第9回訪日使節団 e ser o primeiro a ocupar o cargo de Representante dos Alunos 生徒会長, cargo criado pela Kawamura sensei.

O nosso encontro depois de muitos anos foi até curioso. Digamos que naquela sala, o tempo não tinha passado. Nós dois alunos de 44 anos, sentados retinho na cadeira, com as mãos em cima do colo e sorrindo para a nossa mestra. Kawamura sensei com seus 92 anos, NÃO MUDOU NADA!! Muito ativa como sempre, determinada e forte.

E ainda tomamos bronca HAHAHAHAHAAH. Vivi o tempo quando criança, a Kawamura sensei dava bronca em mim, chegava em casa e contava para a minha mãe. Quase que de imediato ela ligava para a escola e:

””Kawamura sensei, muito obrigada por se importar com meu filho. Se necessário, pode bater.”

Que infância gostosa. O nosso papo voltou para a atualidade e falei sobre as aulas e palestras de Sakes que faço em vários lugares. Em uma delas, tive a feliz presença da sensei, só que o conteúdo não abrangia a cultura e sim, aspectos econômicos e técnicos.

Então sensei me pediu uma coisa inusitada:

”Você poderia ministrar um seminário de sake aqui no Oshiman? Para mim?”

Uma turbulência de sentimentos começara a me balançar por dentro. A primeira delas é o que os pais vão achar de falarmos sobre bebida alcoólica em uma escola. Só que no Japão isso é bastante comum, produtores de sakes falarem sobre bebidas, ou alunos visitarem as fábricas de sakes. No contexto educacional e cultural, o Japão ensina o SHAKAI KENGAKU 社会見学 onde alunos vivenciam o que a sua cidade gera de emprego, economia, como preserva a cultura e a história do local.

Outra e a principal questão era: Ensinar alguém que me ensinou a vida toda.

Um dia, meu mestre de Kendô, Sr. Roberto Kishikawa me disse:

”Se você quer retribuir alguém, a ultrapasse, vença a pessoa. Essa é a real forma de gratidão.”

Para a cultura ocidental pode parecer rude e até um desaforo. Mas no Japão essa é a maior forma de demonstrar carinho. Então aceitei. Só que tive de mudar toda uma estrutura de palestras que dou há anos. Pude experimentar métodos novos, de conteúdo e apresentação. Ainda mais entrando na cultura e história da gastronomia japonesa, que fatalmente a sensei poderia saber muito bem.

(Interagindo com o público)

Diante de vários participantes, interagia com todos. Ex-alunos, pais de alunos, professores, entre outros. Só que discretamente olhava a Kawamura sensei o tempo todo. Observava o tempo de resposta nas informações que eu ministrava. Reagia rápido, então continuava. Reagia mais devagar ou sem reação, mudava a direção do assunto. Estava andando em cima de casca de arroz.

Olha, foi uma experiência única e nova depois de 15 anos de caminhada no mundo do Sake. Um caldeirão de sentimentos que foram cozinhando com tanto tempero e amor, aos olhares carinhosos das minhas professoras.

(Kawamura Sensei na primeira fileira)

Pude retribuir honrosamente a Kawamura sensei, mas acho que fui lá para aprender mais e receber a sua energia.

Em suas palavras: ”Não existe linha de chegada para o Aprendizado”


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