• Alexandre Tatsuya Iida

Formação da Culinária Japonesa no Cenário Paulistano

Atualizado: 12 de Dez de 2019


A Japan House São Paulo recebeu convidados ilustres na tarde ontem. Na verdade ilustre é até um adjetivo sem peso. Reunir os mestres da gastronomia raíz do Japão em São Paulo, juntos no mesmo palco, além disso a presença do Mestre Masanobu Haraguchi é algo impensável

Pouquíssimo ou quase nenhum veículo de comunicação conseguiu uma simples entrevista com o Itamae Haraguchi. Boa parte por ele não gostar mesmo de entrevistas, pela timidez e pelo princípio de o cozinheiro não precisa se expor e sim os pratos.

O encontro foi mediado pela Chef do Aizome e Embaixadora da Boa Vontade da Difusão da Culinária Japonesa, Telma Shiraishi e o primeiro bloco apresentado pelo Editor e Jornalista da Veja SP, Arnaldo Lorençato.

Arnaldo nos apresenta como era o cenário da gastronomia japonesa no centro de São Paulo. Falou também da viagem que fez ao Japão a convite da Fundação Japão, há anos. Na imagem o próprio aparece degustando belíssimos pratos no Ryotei KITCHÔ no bairro de Arashiyama em Kyoto, o mesmo que o Circuito do Sake visitou com 10 brasileiros em 2017.

(Embaixadora da Boa Vontade da Difusão da Culinária Japonesa e Chef do Aizome, Telma Shiraishi e Arnaldo Lorençato da Escritor, Editor e Jornalista da Veja SP)

Muito legal ouvir boas lembranças de Arnaldo, falando sobre a Liberdade das antigas e também de pontos no Paraíso e Jardim Paulista. Das escuras e úmidas pensões de japonesas nas estreitas ruas da Liberdade, lá se originou os primeiros restaurantes que na verdade eram refeitórios para o pessoal da colônia nipônica.

Da rua Conde de Sarzedas, Rua da Glória, Barão de Iguape, Tomás de Gonzaga e digamos o centro de tudo isso, a Rua Galvão Bueno, reuniu o que havia de mais tradicional dos restaurantes japoneses de São Paulo. A culinária raíz, dos tsukemonos, assados, tinha sashimis mas sem salmão.

Ao mesmo tempo que na Rua 13 de maio próximo da Av. Paulista era onde se localizava o restaurante AKASAKA 赤坂 caríssimo restaurante japonês e reduto dos executivos e políticos japoneses. Aliás a região do Paraíso continua nos dias de hoje, aglomerar as famílias japonesas que vivem temporariamente em São Paulo.

Arnaldo também revela que antes de mergulhar no jornalismo, recém chegado em São Paulo, buscou emprego no extinto Banco America do Sul, na Av. Brigadeiro Luís Antônio. Curiosamente, um banco que tinha mais japoneses que o Banco de Tokyo que ficava na Paulista. Eu mesmo tinha conta na agência da Galvão Bueno. Percebo que também sou antigo, pois lembrei do Saudoso Jumbo Eletro em frente à sede do banco nipônico.

Percebe que até os dias de hoje, o bairro do Paraíso reúne os restaurante da culinária tradicional, como Shinzushi, Kansuke, Sushi Kiyo, Aizome, Tempura Ten, Jojo Ramen, etc.

(Takae Hachinohe do Komazushi, esposa do mentor de Jun Sakamoto)

Agora o chamado Ninho da Gastronomia Japonesa era o Top Center. Como um Shopping Center era de chorar de tanta coisa que faltava para ser um centro de compras. O que salvava no térreo era a loja de discos e CD, o HI-FI. Juntava 10 cupons e ganhava um Compact Disc.

Já o subsolo, era o paraíso da culinária japonesa. Os meus saborosos passeios com a minha mãe era alugar as fitas Betamax de programas e desenhos japoneses na locadora ABC e depois almoçar do KARÊ HOUSE. Seus vizinhos MIYABI (segundo restaurante de Masanobu Haraguchi), PUB KEY (do Ozakai-san) e o A1 (do Shinya Koike e Daisuke Takao) atraia tantos japoneses da região.

O KOMAZUSHI (que deu lugar ao A1) fundado em 1969 pelo mestre Takatomo Hachinohe, nascido na cidade de Hachinohe em província de Aomori. Administrada pelo casal, a casa era famosa pela forte personalidade do marido que, não aprovava muito a entrada de brasileiros há tempos.

Muitos podem não gostar desse tipo de tratamento, só que era o preconceito dos 2 lados. O lado brasileiro que tinham nojo dos japoneses comerem coisas cruas. Por outro, tratarem bem quem fosses japoneses. O próprio Arnaldo tinha de ir com algum conhecido ou amigo japonês para ter a sua entrada ”autorizada”.

Eu mesmo vi essas cenas em várias casas em São Paulo. Muitos comércios, mesmo não sendo comestíveis, não gostavam que brasileiros entrassem no seu recinto. Todas as pessoas que não fizessem parte (descendência) do grupo de japoneses, os chamavam de GAIJIN, que quer fizer ”Pessoa de fora.” (irônico dizer, já que os japoneses não são daqui).

Agora o KOMAZUSHI tinha os melhores sushis servidos na cidade, sem sombra de dúvida. Também serviu de plataforma para o renomado sushiman, Jun Sakamoto decolar de vez para o sucesso.

(Mestre Masanobu Haraguchi em sua rara aparição em palestras)

Já o Masanobu Haraguchi, veio ao Brasil pela cadeia de restaurante SUNTORY que se instalou na Alameda Campinas bem próximo da Av. Paulista. O jovem Haraguchi que comandava as várias cozinhas dentro do próprio restaurante, também produzia o catering, o serviço de bordo da JAL Japan Air Lines e o serviço nipônico da extinta Varig.

Passados os anos, Haraguchi entra na parceria com Kohashi e Tangue e abre o MIYABI dentro do Top Center. Responsável pela cozinha quente, Haraguchi faz marca o nome na gastronomia japonesa paulistana.

Foi também a época que conheceu uma pessoa apresentada por uma dona de um izakaya na Liberdade. Haraguchi conhece a Margarida Tago e mais para frente se casam. E a senhora Fujii que apresentou os pombinhos era a primeira dona do Izakaya ISSA. Que coisa.

Mais tarde Haraguchi queria produzir os seus próprios pratos, administrar sem sócios, não ter rabo preso. Então abre o BAN na rua Tomás de Gonzaga na Liberdade, livre, leve e solto. Infelizmente hoje, o restaurante está fechado por causa do imóvel ser vendido e o novo dono resolveu cobrar o olho da cara para se manter.

Mas vem novidades por ai.

(Satoshi Tanji do lendário izakaya KABURÁ)

Já os irmãos Tanji que comandam o pioneiro izakaya KABURA na Liberdade, tem 36 anos de história para contar.

Acho que nunca contei. A minha família antes de entrar no mundo da gastronomia, tinha uma loja de presentes, na rua Galvão Bueno. Então um belo dia, começou a obra no vizinho de parede. A criança aqui de curioso, descobre que era um restaurante. Chamava-se KABURA.

O izakaya é famoso por reunir os boêmios nipônicos. Por mais que a cozinha tenha horário para fechar, os clientes ficavam bebendo até cair mesmo o dia clareando.

De 10 pessoas 15 falam tão bem dos peixes assados. Fora que tem de tudo. Do cru ao assado, frito e cozido. Uma excelente experiência para que curte um boa bagunça, sem aquela cerimônia nipônica.

Olha, sei que em 1 hora, pude dar uma volta bem grande ao passado, relembrando a infância que eu passei na Liberdade. Apesar de morar no bairro da Aclimação, filho único e meus pais trabalhando juntos, eu passava mais tempo no serviço que em casa.

Digamos que vi o bairro da Liberdade evoluindo por décadas.

Foi uma excelente experiência.


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