WANAMAGASHI|和生菓子

14.10.2018

 

Esta é uma entrevista bem antiga que fiz em Mie, em um das famosas casas de Wanamagashi. 

 

A vida de um WAGASHI SHOKUNIN ou Confeiteiro Japonês não é nada fácil. Não só pela técnica e pela dificuldade da cultura. Mas da perseverança, da paciência. Logo que você começa a trabalhar em uma empresa de Wagashi, não é tão rápido em poder fazer os doces maravilhosos. Aliás, nem nos deixam tocar nos utensílios. 

 

Nosso dia a dia é de limpeza, lavar louça, entrega dos doces, lavar o feijão Azuki. Nem temperar os nossos superiores não deixam. Somente trabalho básico. Quantas mil vezes pensei em largar o trabalho? Para que me submeter a esse inferno arcaico? Para que suportar esta humilhação? Pensava o tempo todo, principalmente todas as manhãs. Às 3 da manhã.

 

No mundo do WAGASHI, há o ditado: 3 anos cozinhando Anko, 5 anos queimando lenha. Ou seja, no mínimo 8 anos de trabalho duro até começar a criar um desenho tão desejado. Nesse universo, nosso trabalho é volátil. Se mais novatos entram, o posto de cada um sobe. Ou deveria, pois se nossos superiores continuam no ofício, não tem para onde subir. É um trabalho sem a luz no fim do túnel.

 

Todas as manhãs é a mesma coisa. Além do serviço de fazer o café da manhã de todos, tem que pegar panelas gigantes para cozinhar o Anko. Dezenas de kilos de Feijão Azuki com outros kilos de açúcar. Acho que só de cheirar o doce, a diabete aparece. Além disso, ficamos trabalhando o dia inteiro em pé e para piorar, a altura dos móveis é padrão. Sorte de quem está na numa boa altura. Se for mais alto ou mais baixo que nem eu, é um festival de dor nas costas e na batata da perna.

 

A pasta de feijão, o Anko, parece ser apenas o feijão Azuki cozido, triturado e misturado no açúcar. Não é bem por aí. Só na nossa cozinha tem 12 tipos. E durante o cozimento, é como misturar lava. Bolhas escaldantes estouram no nosso braço. O tempo todo.

 

Nosso trabalho é bem árduo todos os dias. Agora os nossos superiores também sofrem. Sempre de olho na meteorologia para calcular o quanto de doces vão preparar. Nossos doces tem a validade de apenas 1 dia. Não pode sobrar. Tem que ficar de olho nos feriados, atividades escolares, festividades, onde sempre um pacote de doces viram presentes. 

(Material para moldar os doces)

 

E quando é época de presentes, não temos mais vida. Praticamente moramos na fábrica. Tem um dia que dormi encostada na mesa de tão cansada que estava. E quando vem turistas? Não tem como prever se vende ou não.

 

Nas folgas, tenho outras tarefas. Saio pela cidade a procura de doces. Estudo chás, pois harmonizam com os nossos produtos. Estudo a cultura, leio livros, assisto vídeos, faço de tudo para compreender o meu ofício.

 

Uma vez, de tão revoltada que estava, joguei a assadeira vazia no chão que fez um barulhão. Certo de que poderia ser demitida, meu chefe veio até mim e disse: Vamos lá fora, respirar um ar fresco. Eu toda envergonhada, o acompanhei. Ficamos ao lado da loja e e varrendo a rua. Meu chefe se curva para pegar uma semente e uma folha seca no chão. Me mostra e:

 

Observe bem a natureza. Uma folha seca pode simbolizar o fim de uma vida. Transmite melancolia, uma certa tristeza, mas a certeza da renovação. As pessoas que compram os nossos doces, não são só para comer. Servem de incentivo para um enfermo. Uma mãe que torce pelo seu filho que estuda feito um louco para o vestibular. Serve de agradecimento para alguém que o ajudou. Pode também, confortar a pessoa que já se foi, deixando o seu doce preferido no altar. E olhe ainda, a cor dessa semente, sua textura, seu peso, cheiro. É a natureza nos dando dicas preciosas o tempo todo. Por isso o trabalho básico tem a sua importância. É como caçar tesouros para o aprendizado. E assim que começamos a desenhar os nossos doces.

 

Eu toda envergonhada, abaixei a cabeça pedindo desculpas. Entrei imediatamente na cozinha e abaixei a cabeça novamente. Pedi desculpas a todos. E eles riram de mim. Disseram: Seja bem vinda. Passou por mais uma fase. 

 

Meu trabalho agora ganha um novo gás. Um novo rumo e nova velocidade. Não faço somente doces, mas um item para as pessoas. E a minha cozinha faz o WAGASHI. O WA 和 quer dizer Harmonia. Harmonia entre os elementos da natureza. Harmonia entre as pessoas, harmonia entre sentimentos, cultura e história. 

 

Assim, nos moldamos como seres humanos, assim como os nossos doces.

 

 

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