O Katsudon|カツ丼の思い出

28.11.2018

 

Em uma noite qualquer, fui jantar com o Julio Nunes no Izakaya Matsu em Pinheiros. Sempre aquele alto astral, a bagunça que já começa logo na entrada, gritaria para todos os lados, risadas e piadas sem graças. Essa é a maior receita do Matsu e que tem cativado muitos clientes nos quase 4 anos de sua existência. Boa comida, boas risadas e nada melhor que a atenção do pessoal do outro lado do balcão.

 

Pode parecer que eles só estão cozinhando, mas ficam de olho em tudo. E nessa noite que tava todo mundo inspirado e eu muito louco, o comandante da casa Sergio Ouba viu que só bebia e não comi muita coisa, se preocupou e:

 

”Quer que eu faça um Katsudon?”

 

Eu quase desmaiando de tanto dar risada a noite toda, levantei a cabeça, olhei nos olhos dele:

 

”E desde quando o Matsu serve Katsudon?”

 

Ele queria fazer o Katsuzara e queria testar. Para quem não sabe, o KATSUZARA カツ皿 é um Katsudon sem arroz. Só a parte de cima. Bom, respondi que queria. Faz tempo que não comia um bom. Um prato popular, caseiro, confort food. E amo esse prato. Depois venho a saber que entrou no cardápio.

 

Eu segurando o copo de shochu com gelo em estado líquido, olhando para baixo e aguentando as piadas do Julio e o Toshi, comecei a sentir um doce aroma, uma doce lembrança. Era o cheiro da cebola sendo assada na panelinha com dashi. De repente todo o som ambiente sumiu.

 

Ainda virado para baixo e fechei os olhos. Estava na antiga casa que morava. Sentado na mesa redonda de fórmica amarela da enorme cozinha de piso verde musgo, com os meus livros e cadernos. Pois é, se depender de mim jamais faria a lição de casa no meu quarto. Então levantei a cabeça e vi minha mãe diante do fogão fritando o empanado de copa lombo. Olhava para a panela e virando o bife com o longo hashi e a outra mão na cintura. Parecia meditar. 

 

O som constante do empanado fritando se igualava ao barulho da chuva lá fora.. O cheiro doce, o dashi. Meu pastor alemão que não deveria estar na cozinha, estava no cantinho deitado escondido da minha mãe.

 

Com a peneira de metal ela resgata a carne e a luz da rua bate nas gotas de óleo escorrendo e de imediato pousa na mini panela com o Dashi e cebola. Cozinha por um tempo e sinto o cheiro do empanado juntando aos dois ingredientes. Quando pronto, abre a panela de arroz e a fumaça branca se liberta. Coloca o arroz, e o suculento empanado com todo aquele caldo em cima. Estoura um ovo, enfeita com tirinha de nori e cebolinha picada.

 

Ela olha para a mesa onde eu fingia estudar e: ”Já terminou a lição? Guarda as coisas que vou servir.” e vem o KATSUDON カツ丼 na minha frente. 

 

Estiquei o braço para posicionar melhor o prato. Sergio me dá um hashi novo. Comecei a comer. Em silêncio. Pensaram que eu fui embora de tão quieto eu estava. Comia sem parar. Não olhava para cima. O vapor do prato que batia na minha cara ajudava a esconder os meus olhos úmidos. Nariz escorria, mas botava a culpa no calor.

 

Comi que nem um refugiado. Olhei para cima, suspirei, falei em silêncio mas o suficiente para minha mãe ouvir onde quer que ela esteja:

 

”Que saudade da senhora...”

 

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