Melhor Rámen do Adegão

15.4.2019

 

Recentemente aconteceu no JAPAN HOUSE SÃO PAULO, a Mesa Redonda de vários renomados cozinheiros especializados em RÁMENs de São Paulo. Infelizmente, por motivos de reuniões, não tive condições de ir.

 

Hoje na hora do almoço, veio um amigo na Adega de Sake falar comigo, disse que participou da Mesa Redonda e me pergunta:

 

”Adegão, foi perguntado à todos os profissionais, do qual Rámen mais marcou na vida de cada um. Aí pensei qual seria o Rámen inesquecível do Adegão?”

 

Fiz o amigo meu sentar, peguei uma garrafa de sake, nos servimos e:

 

”Estava eu na cidade de Hamamatsu em Shizuoka. 2 dias depois de ser condecorado Sake Samurai, estava curtindo a minha primeira folga, sábado a noite na cidade. Uma semana muito tensa de encontros, reuniões e visitas em fábricas de Sakes. E detalhe, nesse dia, havia acordado em Kyoto, almocei em Wakayama, fui beber num izakaya em Osaka para ver o meu amigo Guy Levy e fui me hospedar em Shizuoka. Percorri 4 províncias em um dia. Uma loucura.

 

Como no dia seguinte era domingo e não precisava acordar cedo, fui procurar um lugar para encher a pança. Embora tenha beliscado ótimos petiscos em Osaka, só que o álcool ocupava o mesmo espaço. Cara, não tinha muita coisa aberta. Meu hotel era bem colado à estação de Hamamatsu. Então fui ao entorno dos trilhos e achei um Yatai (Barraca) de Rámen, daqueles bem rústico, de história em quadrinhos. Só faltava ratos passarem pelas minhas pernas de tão raíz que era.

 

O dono de jaleco e touca branca, barba por fazer, jornal aberto e cigarrinho na boca. Ao me ver, já soltou: ”Ô, irasshaimase!” dobrando a notícia.

 

Pedi um Shoyu Rámen. Nisso, o cozinheiro notou que eu estava além da conta no álcool. Sorriu e falou que colocaria mais Chashu e Kamaboko no meu prato. Eu também comecei a rir. O chamei de Rei do Omotenashi.

 

E percebe-se o amor que ele tem pelo Rámen. Embora estivesse dando risada e atenção à mim, seus olhos eram de gaviões de olho em tudo. Ponto da água, do macarrão, do borbulho do vapor. Mas nossa, como o cara era uma palhaço. Um retardado de engraçado!

 

Uma multidão passava por nós, mas parecia que só eu, o cozinheiro e um gato que ficava no telhado da barraca estavam com vida. Tudo na mais absoluta harmonia, diversão e boa comida. 

 

Quando o Rámen ficou pronto, minha Nossa Senhora do Caldo de Tonkotsu!! Que puta caldo!! Marcante, uma textura que.....como vou explicar? É aquele adesivo que gruda bem o tempero na boca, mas é só pegar a quina que solta rapidinho e vai embora. Você quer tomar o caldo o tempo todo! Sabe como ele extrai umami? Ele assa vários tomates e aspargos e joga no caldo de carcaça de porco. Depois ele me explicou, mas esqueci tudo. Queria comer e não estudar.

 

Cada fio de macarrão foi sugado com gosto, que chegava a ser obsceno. Eu torcia para não acabar o conteúdo!  Juro! Mas uma hora acaba. O cozinheiro que o chamava de Oyaji (tipo tiozinho) e ele me chamava de Niichan (tipo jovem). Ele viu que acabou o macarrão e estendeu a mão.

 

Pediu licença e pegou o meu domburi. Pegou uma panela pequena, botou o caldo, gohan dormido, estourou um ovo e começou a cozinhar. Se eu fosse mulher, dava pra ele. O cara fez o segundo prato com aquele caldo de umami vegetal e animal. Olha, er..........não sei mais o que escrever. Imagina eu colocando todos os palavrões possíveis. Sacou?

 

A nova definição de felicidade foi instalada com muito sucesso e sabor. Eu de barriga cheia e alcoolizado, baixei a cabeça e percebi que toda aquela adrenalina da viagem havia acalmado. Colocando as coisas no lugar, nem me dei conta de que meu pai havia falecido no dia do meu embarque para o Japão. Sei que ele ficaria puto se eu cancelasse toda a viagem e o título. Então consegui liberar o corpo no hospital, velei e cremei,  e corri para o aeroporto, tudo no mesmo dia.

 

Acho que o Oyaji percebeu. Então eu disse sobre a minha perda. Ele tirou a touca, pegou um garrafão de Shochu e deu a volta. Sentou ao meu lado e pegou 3 copos. 

 

Ele disse: Não sou um exemplo de ser humano. Faço o meu Rámen porque dou a minha vida por ele. Só que tirando isso, não sei fazer mais nada. E sei que você entende de sabor. Cozinheiro que presta sabe quando o cliente entende ou não de comida. Reações, timing, onde presta atenção no preparo. Não te conheço direito, mas sei que hoje você é meu irmão. E brindemos pelo seu pai. Um puta filho que ele criou.

 

Precisava dizer que encheu os meus olhos de lágrimas?”

 

Então, esse é o meu Rámen inesquecível. E olhei para o meu amigo. Acho que ele precisava de lenço.

 

 

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